O encantamento do mundo


 Se, de um modo geral, alguns artistas estão motivados por certo idealismo, noto que, em revanche, outros são afetados diretamente pelo ambiente que os cercam, fazendo deste estar no mundo o fundamento de sua arte. Não saberia dizer ainda se por influência passiva do meio ou se por uma tomada de consciência, digamos, de uma tradição local, um número significativo de artistas cariocas integram este segundo grupo. Com certeza, dois grandes expoentes da arte brasileira tiveram suas obras notadamente marcadas por esta atenção aos fenômenos: Hélio Oiticica e Lygia Pape. Dois expoentes que exerceram grande influência nas novas gerações e que ainda continuam muito presentes na cena artística brasileira.

Durante muitos anos, como professora da escola de Belas Artes, Lygia foi, em particular, formadora e transformadora de uma geração de artistas que hoje desponta no cenário brasileiro. E neste caso, minha hipótese talvez não seja de todo infundada. De fato, parece existir por parte de alguns jovens artistas locais certo apego voluntário ao mundo – recurso imediato a uma poesia transformadora da experiência ordinária. 



Rafael Alonso foi aluno da Escola de Belas Artes. Da mesma forma que outros colegas de sua geração, sente-se atraído pela experiência com as situações mundanas que, não fosse o olhar atento do artista, estariam perdidas para sempre no limbo do cotidiano. Por exemplo, com 35 tabuleiros de madeira, de aproximadamente 30cm x 30cm, recobertos inteiramente por elásticos, desses usados em banco para prender maços de dinheiro, cria um grande painel retangular de 210cm X 150cm. A simplicidade do trabalho não impede que o resultado seja esteticamente surpreendente. A razão lógica que ordena a estrutura é quebrada pelo apelo a sensualidade. A monocromia do látex, lembrando um pouco o tom natural da madeira, semitona-se sutilmente em função da incidência de luz e segundo a irregularidade do material. Com efeito, a superfície do painel, reagindo diferentemente em relação à posição do observador, sugere ora a suavidade da camurça, ora a rudeza da cortiça. Somente quando se aproxima do trabalho – de veras quando o tocamos – é que se toma consciência do verdadeiro material que o reveste. Ilusão ou realidade?

Nas estruturas em fita adesiva usadas pelos camelôs como reforço adicional para as caixas de isopor, o artista vê a possibilidade de criar um jogo de linguagem explorando a tensão entre uma arte concreta, que aproxima a pintura do objeto, e o espaço trompe-l’oeil tradicional. Assim, ele desenvolve uma série de pinturas/objetos intitulada Tampas; essas, em formatos variados, têm suas dimensões baseadas nos padrões regulares das caixas de isopor disponíveis no mercado. A fatura, imitando em tudo o aspecto das fitas adesivas – a largura, a cor ocre e transparente, a textura lisa e brilhante – insiste ironicamente na virtualidade do espaço ilusório. Alinhando-se a partir das margens horizontais, as pinceladas largas esticam-se e recobrem todo o plano até alcançarem as bordas adjacentes, como se realizassem algum tipo de esforço para reter um suposto conteúdo interno. Esforço inútil, diga-se, pois a superfície reflexionante que o artista prepara frustra todo olhar mais penetrante, devolvendo para o mundo toda a luz que pretende atravessá-la. Somos por ela lançados de volta às ruas.

Quando, no lugar da tinta, o artista opta por utilizar o “verdadeiro” material, quer dizer, a fita adesiva, o resultado inverte-se, mas só parcialmente. Se nos trabalhos anteriores a pintura imitava o material, este, agora, imita a pintura. Contudo, o objetivo do artista não é a imitação, mas antes o jogo ambíguo entre a ilusão e a alusão a uma realidade palpável. Esses painéis, realizados em dimensões mais generosas, têm suas áreas recobertas, em geral, em tons verdes e azuis, com variações ligeiras e ocasionais, por vezes obtidas pela superposição de camadas, outras pelos defeitos inerentes à fabricação. Como no outro trabalho, Rafael dá preferência pela disposição horizontal. Os largos campos de cor que se formam se encontram justapostos, sugerindo a linha do horizonte de uma paisagem marinha. Entretanto, subtraída a ilusão que os mantém profundos, estes se tornam rasos e superficiais. Por consequência, onde quer que a imaginação nos possa conduzir, as paisagens transformam-se   em superfícies brilhantes, fitas adesivas e, novamente, em caixas. Se como paisagens estes objetos flutuavam e se delongavam no infinito; como caixas, ganham peso e são, imediatamente, atraídos pela força da gravidade – para o chão. Uma paisagem que se expande interiormente, abstraída da arquitetura que a abriga, ou uma arquitetura da contingência que desola mais que nos ampara?

Outras vezes, o artista dispõe a série em conjunto, como se fosse caixas empilhadas em um depósito. Desta forma, brinca com as organizações pragmáticas, cujos fins buscariam não o equilíbrio pela forma graciosa, mas a distribuição regular do peso e a acomodação das coisas segundo uma economia natural de esforço e espaço. O jogo crítico em relação à tradição racionalista ocidental matem-se em evidência.

Assim, partindo delas e colocando-as às avessas, Rafael parodia as estruturas expansivas de Mondrian, tão bem adaptadas aos planos geométricos da arquitetura. As composições deste artista, sustentando-se através de um equilíbrio delicado e de harmonias finas, revelam muito de um gosto cultivado por séculos, que buscou na idealização do belo o modo de re-formar a realidade pela arte. Os empilhamentos de Rafael, reportando-se à elas, guardam, todavia, fina ironia. Se, em um primeiro momento, conformam-se às paredes da galeria e expandem-se no espaço arquitetônico, solicitam, em seguida, que atravessemos o cubo branco para alcançarmos o exterior e observar tudo que nos cerca com tanta ênfase.

Por outro lado, diante de seus módulos regulares e seus arranjos “naturais”, não temos como não lembrar aquelas disposições seriais, tão elegantes, dos minimalistas. Como estes americanos, ele se apropria de padrões encontrados. No entanto, dispensa a homogeneidade, típica daqueles artistas, para acolher todos os formatos e dimensões disponíveis e os conjugar, finalmente, em uma arquitetura espontânea, cujo princípio construtivo lembra mais a vocação dos trópicos para a autoconstrução inventiva do que para a servilidade aos padrões cultos formulados no ocidente. Nesse caso, o que prevalece em suas estruturas é um mundo urbano, quase selvagem, que nos assedia diariamente, cuja diversidade das qualidades tornam as escolhas sempre difíceis. Uma deselegância, de certo bem longe das formulações idealistas e bem mais perto da rua, mas que o artista consegue transformar delicadamente em poesia viçosa.

Esse olhar para fora, dirigido ao mundo, a capacidade de apreender o real, de comover-se com ele, se não uma tradição do contexto local, é, pelo menos, um traço marcante que certos jovens artistas cariocas trazem em suas obras. A de Rafael Alonso não me deixa mentir. Para mim, a arte é tão mais interessante quanto mais ela faça ver a vida como algo tão interessante quanto a arte.


Luciano Vinhosa

10 de janeiro de 2008

Texto para a exposição individual. Galeria Amarelonegro, Rio de Janeiro - 2008